quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Saudades.

 Hoje, por pura preguiça ou até mesmo falha momentânea da memória, eu esqueci de tomar meu remédio pela manhã e só consegui tomá-lo no fim da tarde. Infelizmente um dos efeitos que esse remédio dá no usuário é a insônia. E é assim que eu estou agora. O que eu vou escrever aqui pode ser muito bem desconsiderado por muitos, pois é mais uma coisa que eu precisava colocar pra fora, mas não tinha nem como e nem com quem fazer isso no momento. Lembrei do blog. Por que não?

 A verdade é que eu não passo por um momento muito favorável em minha vida. Só para dar dois exemplos: fui demitido do meu trabalho na faculdade na última sexta feira e estou vivendo um ano péssimo na faculdade. Estou correndo atrás de empregos que, por mais que existam milhares por aí, sempre fogem de mim. Parece até que ninguém quer me contratar. Mas é a vida. Esse ano, eu realmente não sei o que houve, mas estou desmotivado. Desmotivado para fazer as coisas da faculdade, desmotivado para levantar da minha cama toda manhã, desmotivado para qualquer coisa. E eu não faço a menor ideia de como isso vai passar. Talvez pelo fato de eu não ter contato com muitos amigos aqui em Londrina e, mesmo morando com outras 3 pessoas, eu moro praticamente "sozinho". Talvez. Não posso dizer nada com uma certeza absoluta.

 Mentira.

 Posso dizer apenas uma coisa com uma certeza absoluta: eu tenho saudades. Saudades de épocas passadas, de épocas motivadoras, em que mesmo quando o obstáculo era difícil, eu conseguia passar por cima. Sozinho ou com a ajuda de amigos. Não importava como, o que importava era conseguir.

 Para aqueles que leem o que eu escrevo e não sabem, eu perdi o meu pai vítima de câncer há 8 anos atrás. Eu tinha 11 anos de idade na época. Eu sei que faz muito tempo, mas a verdade é que isso ainda dói dentro de mim. Tanto que toda a noite, antes de dormir, eu penso em várias coisas e entre elas sempre tem uma padrão: "Como seriam as coisas se ele ainda estivesse vivo?".

 Eu estaria morando em Londrina? Eu estaria fazendo esse curso que faço? Eu passaria pelas coisas que eu passei? Eu seria que eu sou hoje? Minha família ainda seria feliz?

 Não sei e nunca saberei.

 O fato é que tudo isso veio à tona esses dias atrás. Eu estava revirando a internet e achei dois CDs que continham a trilha sonora dos jogos Need for Speed Undergroun 1 e 2. Grandes jogos. Lembro-me de gastar muito dinheiro jogando na lan house do Rafael, rapaz que hoje é casado com a minha prima Michele e tem uma filha linda.

 Mas uma coisa leva a outra. Memórias puxam outras memórias que estão relacionadas naquilo o que você está pensando. Para os mais antigos isso é o famoso "trem de ideias", mas hoje já pode ser chamado de "hiperlink".  De qualquer maneira aquela lan house, a Elite, me traz boas e más lembranças. Tantos jogos que joguei lá, tantos amigos que fiz. Lembro-me da regra que eu e o Leonardo, amigo meu de escola, usávamos na época de provas da escola em que éramos soltos da aula 9h30. Tinha que correr duas quadras e andar uma até chegar na Elite para pegar os melhores computadores. Era divertidíssimo. Fizemos isso por um ano. Até a Elite fechar. Fazer o quê? Não é tudo o que dura para sempre.

 Porém, infelizmente, não são apenas as boas memórias que prevalecem. Lembro-me de um domingo. O pior domingo da minha vida. Estava lá eu e meus primos, Júnior e Diogo, jogando na Elite, que era do lado da casa da minha vó. Até que a minha prima Michele foi até lá, em lágrimas, nos chamar  para que fossemos para a casa da minha vó imediatamente. Algo estava errado. Todos pegaram seus carros e foram para Londrina. Não me lembro da viagem, mas me lembro de chegar no hospital em que meu pai estava internado, o Mater Dei. Ah, maldito seja, Mater Dei. Uma das coisas que eu odeio em morar em Londrina é ter que passar lá na frente de vez em quando. Me dói. Realmente.

 Lembro-me de ver toda a minha família reunida no corredor do hospital. Muitos estava tristes e chorando e eu não estava entendendo. Minha ingenuidade sempre foi imensa. Até hoje é. Fui procurar minha mãe e ela me deu uma nota de um real (meu Deus, ainda existiam as notas de um real!) e pediu para que eu descesse até o primeiro andar e pegar um refrigerante na máquina de refrigerantes. Como eu era gordo na época, fui pegar o elevador. Enquanto esperava o elevador subir, ouvi médicos correndo gritando "Saiam da frente! Saiam da frente!". Quando me virei para ver eles passaram correndo com meu pai em uma maca. E aquela foi, talvez, a última vez que vi meu pai com vida.

 Eu nunca superei isso e acho que nunca vou superar. Porém tudo isso me veio a mente pelo trem de ideias. Coisas que eu nem me lembrava. Como que eu não demonstrava um sentimento na época em que meu pai morreu. Eu simplesmente não entendia o que havia acontecido. Ou não queria entender. As pessoas me consolavam e eu não entendia. Eu via minha mãe chorando na cama e meu irmão gritando "Não!" enquanto chorava e eu não entendia. Ou eu não queria entender.

 Voltando a Elite depois disso, lembro-me que um dos rapazes que trabalhava lá, o André, era um rapaz super gente fina e me ensinou a ficar na escola e a chamar as pessoas de "doutor". É uma maneira respeitosa de chamar as pessoas. No dia que eu voltei lá depois do falecimento de meu pai, enquanto eu jogava ele me deu uma garrafa de Coca-Cola.

Eu perguntei: "O que é isso?"
Ele disse: "É pra você."
Eu: "Por que?".
Ele: "Porque você é gente fina pra caramba."

 Fiquei feliz pelo elogio e aceitei o refrigerante. Esse foi o André fazendo um pouquinho que seja para tentar arrumar um garoto que nem sequer sabia que estava quebrado.

 Eu não vou seguir as memórias pós-falecimento de meu pai, pois lá só existe dor e sofrimento. Vamos voltar as memórias antigas. Eu e meu pai. Videogames estavam inclusos, claro. Lembro que ele, com todo o esforço do mundo, sentava ao meu lado para jogar comigo mesmo sem saber a menor ideia do que estava fazendo e eu calmamente explicava para ele que para virar o carro do videogame você precisava apertar a setinha do controle e não virar o controle. Quem dera ele tivesse vivido o bastante para conhecer o Wii.



 Porém quando eu coloco como palavras-chave "pai" e "videogame" duas memórias em especial aparecem. Uma, que eu nem lembrava direito, voltou a mim esses dias e trouxe um sorriso bobo a minha face sem nenhum motivo aparente. Estávamos eu e meu pai no Clube Campestre indo buscar o meu irmão no treino de futsal. Ele ainda ia demorar, então pedi dinheiro ao meu pai para comprar uma ficha para jogar no fliperama. No fliperama tinha um emulador de Super Nintendo e o jogo que eu escolhi foi o grande International Super Star Soccer Deluxe. Por algum motivo que eu desconheço, eu estava jogando com a Itália e eu ia enfrentar a Romênia. Meu pai revesava entre ver o treino do meu irmão e o meu jogo. E eu estava apanhando feio no jogo! Acabou o primeiro tempo e eu perdia de 3 a 1. Quando meu pai viu isso chegou perto e disparou: "Iiiiiiiih! Tá ruim, em filhão?". Fiquei nervosinho (sim, eu era esquentadinho) e comecei o segundo tempo. Comecei levando o 4º gol. Não foi como o esperado. Porém fui atrás do prejuízo e empatei o jogo. 4 a 4. Dessa vez meu pai não havia dito nada. Porém, como na maioria dos fliperamas de tempo, o jogo travou quando acabou o tempo faltando uns 30 segundos para seu fim. E esse foi o placar: 4 a 4. Quando fui dizer ao meu pai ele não disse nada, apenas esboçou um sorriso ao olhar para a máquina travada no placar. Acho que foi o melhor jogo de International Super Star Soccer Deluxe da minha vida.

 A outra memória é bem peculiar e divertida. Era a época da internet discada e dos computadores. Meu pai tinha comprado um pra mim e meu irmão. Colocou no nosso quarto com internet discada e tudo mais. Meu irmão e os amigos dele tratavam de conseguir os jogos e eu tratava de jogar sem parar. Lembro-me de dois jogos que vieram no computador: Actua Soccer e Twinsen's Odyssey. Porém nenhum deles tem a ver com meu pai. O que está relacionado a meu pai é a versão demonstrativa do FIFA World Cup 98. E não por causa do jogo, mas pelo fato de que, toda versão demo, quando você termina o jogo ela vai para um tela especial dizendo como será o jogo completo. O som do computador estava extremamente alto. Só fui perceber isso nessa tela. Acontece que você precisava clicar em "sair" para sair da tela. E enquanto isso ela ficava lá e tocando uma música. Essa música para ser mais específico.





 E essa música tocava MUITO alto e eu não fazia a menor ideia de como abaixar o volume. Então eu gritava  para o meu irmão vir me ajudar, mas ele não vinha, talvez porque não me ouvia. A única figura que me apareceu foi meu pai dançando na porta do meu quarto essa música. Dançando enquanto eu berrava (eu era uma criança odiosa) para ele vir me ajudar a abaixar o volume. Dançava sozinho pra lá e pra cá com um sorriso no rosto ao som da música. Até me chamou para ir dançar, mas eu estava preocupado demais tentando abaixar o bendito volume. Se não me falha a memória ele veio me puxar pelo braço para ir dançar, mas soltei meu braço antes. Não me lembro o que houve depois, mas essa cena é inesquecível.

 De qualquer maneira esse que vos escreve digitou todo esse texto sob lágrimas. Agora fico na dúvida se o coloco no ar ou não. Se bem que eu sou preguiçoso demais para produzir algo e depois simplesmente descartá-lo. De qualquer maneira, se quiser ignorar tudo o que eu escrevi, pode ignorar. Não faz parte do que eu devo escrever aqui. É só o resultado de mais uma noite sem dormir, com uma fase ruim da vida e um remédio para cortar a ansiedade, mas veio escrito "anti-depressivo".

 Acabo de me lembrar que o Dia dos Pais está chegando. Caso queira, pode considerar isso como a minha postagem sobre o Dia dos Pais.

 Enfim. Vou tentar tirar ao menos uma soneca, pois daqui algumas horas tenho que dirigir através da cidade para dar aula para uma sala de 30 alunos sozinho. É a vida que eu escolhi.

 Se cuidem, bons jogos e até mais!

 @Kirilko

P.S.: Eu te amo, pai. Onde quer que você esteja, saiba que eu te amo.

Nenhum comentário: